quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

NATIVIDADE DO SENHOR


Ao longe cessou a voz de uma judia que recitava David.
A ventania amenizou-se; o ambiente era, agora, de genuína e inefável doçura.
O próprio ar daquela noite parecia tecido de luz...
Na quietude da campina vasta, as ovelhinhas mansas baliam suavemente. Cedo, os cães aquietaram-se; e de há muito nenhum viajor retardatário quebrara o grandioso silêncio dos ermos israelenses.
De longe em longe poder-se-iam divisar, nítidos, os lírios alvos dos campos, e as colinas, em derredor, jaspearem-se aos clarões profusos e intermitentes, qual se formassem angelical ninho onde todas as formosuras da Criação viessem repousar, em excepcional homenagem à própria
Vida. Por isso, talvez, o Céu se assemelhasse a rútilo diadema incrustado de safiras, e sons de harpas, em surdina, voassem na carícia blandiciosa da viração noturna.
Eliezer, atônito, a tudo assistia.
Depois... depois se abriam os Céus profundos, alvissareiros; as estrelas moviam-se... Mas, não; não eram estrelas; eram seres à feição de anjos e querubins que demandavam a Belém de
Judá.
- Que havia de especial no vilarejo? - perguntava-se o varão israelita.
O silêncio majestoso dominava tudo. Os fenômenos, por instante, pareceram sustar o próprio curso.
Então, irrompeu, das Infindas Alturas, um Sol maravilhoso, seguido de milhões de outros sóis menores, matizados das cores mais lindas, quais nenhum homem jamais observou.
Deus meu - monologava Eliezer - que será?
Súbito, despertos, cantavam os pássaros em sonorosos chilreios. Farfalhavam as árvores festivas. Fremia toda a Natureza. Cortinados e leques luminosos descerravam-se no firmamento, em todas as direções. Era a festa da Luz, conjugação harmoniosa de sons e cores, de doces eflúvios e amenas irradiações.
Eliezer divagava, agora, reparando as veredas esbranquiçadas e desertas, naquelas altas horas da noite, quando vislumbrou um vulto algum tanto distante.
- Quem vem lá? - perguntou a esmo.
Firmou bem os olhos e disse de si para si:
- É Moad; sim, não há dúvida de que é ele mesmo.
O vulto envelhecido e cansado contrastava com a beleza reinante. Ladeou o sopé da colina agreste, à maneira de quem proviesse das terras de Dã ou da tribo de Benjamin, talvez das bandas de Emaús, e se dirigisse a Hebron, preterindo os caminhos de Jerusalém.
E seguiu em fora, qual espectro, nada suspeitando.
Eliezer, vidente desde menino, era pois um profeta. E Moad? Viera da Samaria. Seria um ímpio ou um justo? Um falso ou um verdadeiro adorador de Deus?
Tais considerações, e outras, em que tanto se comprazia, outrora, já agora não lhe ofereciam nenhum interesse. O samaritano não mais lhe pareceu o velho desafeto de antanho e, sim, um irmão a mais nos caminhos da Vida.
- Hoje começa o tempo da reconciliação - pensou intimamente o doutor da Lei.
O ancião já se distanciava muito, cravando seu cajado na terra arenosa, quando Eliezer, resoluto, partiu-lhe ao encalço, gritando:
-Moad! Moad!
O notívago viandante parou, estupefato.
Eliezer corria a custo, mal sopitando a ânsia que o dominava.
O outro, sem poder conter-se, sai-lhe, também ao encontro. Reconhecera a voz do homem solitário; era Eliezer, seu inimigo de pugnas religiosas, com quem sempre andava às turras.
Os dois homens abraçaram-se, como se uma força todo-poderosa os impelisse às alegrias da fraternidade, levando-os a esquecerem antigas divergências curtidas a longo prazo.
Não houve necessidade de pedirem perdão um ao outro. Apenas disseram:
- Moad, somos filhos de Deus...
- Eliezer, meu irmão...
Os dois quedaram-se em respeitosa meditação. Percorriam com os olhos o estranho cenário da noite iluminada, como se quisessem recolher nas próprias almas toda a magnificência do meio ambiente.
- Que dizes de tudo isto, Moad? Esta noite não te parece de infinita grandiosidade, como se o Enviado de Deus, que esperamos, houvesse descido à Terra, para salvar os filhos da perdição?
- Antes, dize-me tu, Eliezer, que és profeta, que há de especial na antemanhã deste dia?
- Louvemos o Deus dos nossos antepassados. Moad! Hoje, há uma luz maior do que todo o luzeiro aceso no Infinito e uma maravilha maior do que todas as belezas da Criação - esta noite o
Salvador virá, e o que vemos são os júbilos dos Céus, dos santos Anjos do Senhor, pela sua Natividade.
Pouco depois, segundo relatam os apontamentos evangélicos, aparecia o Anjo Gabriel anunciando o advento da Boa-Nova aos pastores que apascentavam seus rebanhos na calada da noite - Jesus, o Messias Prometido, havia nascido em Belém de Judá.

Passos Lírio

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